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Antibióticos. Modo de usar
03 fev '18

Foto: © Maxal Tamor

Um dos mais concorridos e importantes eventos realizados na sede do Sincofarma-SP em 2017 foi o debate sobre o uso consciente de antibióticos promovido por técnicos da Covisa – órgão responsável pela vigilância sanitária em São Paulo.

O objetivo do encontro dos especialistas com associados do sindicato foi trazer informações sobre os riscos do uso indiscriminado dessa classe de medicamentos e, por outro lado, dos benefícios produzidos por seu uso correto. Aqui, com exclusividade para a Revista ABCFARMA, técnicos da Gerência de Medicamentos da Divisão de Vigilância de Produtos e Serviços de Interesse da Saúde - Coordenadoria de Vigilância em Saúde da Covisa respondem às principais dúvidas que podem ocorrer aos profissionais de farmácia a respeito dos antibióticos – remédios que salvam tantas vidas quando empregados com consciência e eficiência terapêutica.

Durante décadas, os antibióticos, na prática, foram vendidos sem prescrição médica. Agora, a prescrição, com receita retida, é obrigatória. O que mudou e por que mudou a regra sanitária envolvendo antibióticos? O que foi corrigido com a mudança na prática de dispensação?

A recomendação da venda de antibióticos apenas com prescrição médica sempre existiu, conforme os dizeres da embalagem. O que ocorria no país era a inobservância dessa regra e o consumo desenfreado. O Brasil se encontra na quarta posição do ranking mundial de consumo de medicamentos – e 40% é representado pela venda de antibióticos. O uso indevido está relacionado a ações como automedicação, sobredose, seleção inadequada, falta de conhecimento apropriado, não cumprimento das prescrições, entre outros. Para conter esse uso abusivo, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária publicou a RDC 20/11, que regulamenta a venda desses medicamentos em farmácias e drogarias mediante a retenção da receita. Essa RDC estabelece critérios para a prescrição, dispensação, controle, embalagem e rotulagem de medicamentos à base de substâncias classificadas como antimicrobianos, de uso isolado ou em associação. Com a transmissão das informações legais exigidas no momento da dispensação, a ANVISA poderá traçar um perfil do prescritor e do consumidor e avaliar as melhores abordagens para o uso consciente dessa classe de fármacos.

A resistência aos antibióticos é mesmo um grave problema de saúde pública? Deem números, se possível.

A ameaça à saúde pública pelo crescimento da resistência antimicrobiana é impulsionada tanto pelo uso adequado como inadequado de medicamentos anti-infecciosos utilizados na saúde humana e animal – bem como na produção de alimentos e, ainda, por medidas inapropriadas para controlar a disseminação de infecções. A Organização Mundial de Saúde (OMS) estima que no ano de 2050, caso não sejam tomadas ações efetivas para controlar os avanços da resistência aos antimicrobianos, uma pessoa morrerá a cada três segundos em consequência desse agravo – o que representará 10 milhões de óbitos por ano. Esse número superaria a mortalidade relacionada ao câncer, atualmente com 8,2 milhões de óbitos por ano. Estima-se que hoje, a cada ano, 700 mil pessoas morram em decorrência de cepas resistentes de bactérias causadoras de infecções comuns, HIV, tuberculose, malária e febre amarela.

Somente de tuberculose multidroga-resistente e tuberculose extremamente resistente morrem cerca de 200 mil pessoas anualmente. Possivelmente, esses números são subestimados devido à fraca vigilância em muitos lugares do mundo. Dados mundiais de consumo de antimicrobianos corroboram as preocupações em saúde pública. Entre 2000 e 2010, o consumo de antimicrobianos em 71 países aumentou 36%, sendo o Brasil, a Rússia, a Índia, a China e a África do Sul os responsáveis por três quartos desse aumento. Apesar dessa elevação no consumo, ainda se observam problemas no acesso a antimicrobianos, em especial nos países em desenvolvimento, gerando ainda mais mortes do que a própria resistência aos antimicrobianos. Estima-se, por exemplo, que o acesso adequado a antimicrobianos pode reduzir as mortes por pneumonia em 75%.

Quando se fala em “gerações” de antibióticos, é possível fazer um resumo da evolução desses medicamentos desde a penicilina? Estamos em que geração, hoje?

Este termo se aplica apenas a um grupo de antibióticos – as cefalosporinas.Entre os diversos outros grupos de antibióticos, podemos citar:

– Penicilinas: descobertas em 1928 por Fleming, são antibióticos beta–lactâmicos e permanecem até hoje como uma excelente classe de antimicrobianos. São divididas em: penicilinas naturais ou benzilpenicilinas, aminopenicilinas, penicilinas resistentes às penicilinases e penicilinas de amplo espectro, que foram desenvolvidas na tentativa de evitar a resistência das bactérias.

– Cefalosporinas: são antimicrobianos beta-lactâmicos de amplo espectro. Classificadas, efetivamente, em gerações, no que diz respeito à atividade antimicrobiana e características farmacocinéticas e farmacodinâmicas. Hoje temos quatro gerações em uso e existe uma 5ª geração ainda não disponível no Brasil. As cefalosporinas de primeira geração atuam preferentemente em cocos gram-positivos e apresentam pouca atividade frente aos gram-negativos. Os representantes da segunda geração apresentam atividade em bacilos gram-negativos, ainda mantendo alguma atividade diante de cocos gram-positivos. As cefalosporinas de terceira geração mostram-se muito eficazes contra bacilos gram-negativos, apresentando menor atividade contra cocos gram-positivos quando comparados aos representantes de primeira e segunda geração. Cefalosporinas de quarta geração apresentam amplo espectro de atividade, atuando contra bacilos gram-negativos e cocos gram-positivos, e têm ainda maior estabilidade perante as beta-lactamases.

Com a receita em mãos, como o farmacêutico deve orientar ao cliente no momento da dispensação? Necessidade de um prazo mínimo, hora ideal da ingesta, o que é preciso informar?

O farmacêutico tem papel fundamental na promoção do uso racional de antimicrobianos e deve contribuir no combate às infecções e à resistência bacteriana. Assim, é essencial que o profissional domine o disposto na RDC Anvisa nº 20/2011, que regulamenta o controle de medicamentos à base de substâncias antimicrobianas.

Eis algumas diretrizes técnicas que podem ser adotadas no momento da dispensação:

1 - Certifique-se de que a prescrição está legível. Caso positivo, veja se está com a dose correta (de acordo com a dose usual). Caso haja ilegibilidade, lembre-se de que isso invalida a prescrição, nese caso se deve tentar entrar em contato com o prescritor para validar a receita. Isso ajuda todos os lados: prescritor, paciente e farmácia.

2 - Verifique se a prescrição está datada, dentro do prazo de validade para uso e tempo de tratamento. A receita de antimicrobianos é válida em todo o território nacional, por dez dias, a contar da data de sua emissão. Em situações de tratamento prolongado, a receita poderá ser utilizada para aquisições posteriores dentro de um período de 90 dias.

3 - Complete com dados do paciente e do prescritor. No ato da dispensação, devem ser registrados nas duas vias da receita os seguintes dados: 1. A data da dispensação; 2. A quantidade aviada do antimicrobiano; 3. O número do lote do medicamento dispensado; e 4. A rubrica do farmacêutico atestando o atendimento, no verso da receita. As receitas e as notas fiscais de compra devem ficar retidas pelo prazo de dois anos para fins de fiscalização sanitária. A dispensação é na quantidade adequada, não é permitido o fracionamento.

4 - Na substituição por genérico – caso não esteja prescrito o nome genérico, apenas o de referência ou similar – lembre-se de que os produtos não podem ser trocados, a não ser que esteja prescrita a denominação comum brasileira (DCB).

5 - Informe o paciente: o medicamento genérico passa por testes de bioequivalência e biodisponibilidade e temos grande confiança em sua segurança e eficácia. Cabe a você, farmacêutico, informar ao usuário dessa garantia de segurança.

6 - Explique ao paciente que é lenda urbana o fato de que, ao tomar o antibiótico com leite, o medicamento não vai afetar o estômago. Dependendo do antibiótico, na verdade, não haverá a absorção gástrica nem do antibiótico nem mesmo do cálcio do leite.

7 - Antibiótico, e qualquer outro medicamento, se toma com água. O ideal é utilizar um copo de, ao menos, 200 ml.

8 - Orientar o usuário para ter cuidado também com os horários, pois, se o antibiótico foi prescrito de oito em oito horas, ele não deve ser tomado no café da manhã, no almoço e no jantar – mas de oito em oito horas. Temos que manter os picos do medicamento para garantir o seu efeito. Oriente sempre para que o medicamento seja ingerido nos horários corretos. Vale dar a dica de usar despertador, lembrete no celular ou até aplicativos que ajudam nesse tipo de rotina.

9 - Oriente as mulheres em idade fértil, que utilizam como único método contraceptivo a pílula anticoncepcional, principalmente as de baixo teor de hormônios, que seu uso concomitante ao antibiótico reduz o efeito da pílula. Isso pode gerar uma gravidez indesejada. Sugira o uso de outro método anticoncepcional, além da pílula, como preservativo, durante o tratamento com antibiótico.

10 - Diga ao usuário para evitar as bebidas alcoólicas, que podem ter grandes interações com os antibióticos, pois ambos são metabolizados no fígado, em sua grande maioria.

Que erros as pessoas costumam cometer na hora de seguir um tratamento com antibióticos?

– Demora no início do tratamento: deve-se adquirir o medicamento ao receber a prescrição, embora esta seja válida por 10 dias a partir da data de emissão.

– Tomar antibiótico sem prescrição médica: é um erro grave na tomada de qualquer medicamento. No entanto, com os antibióticos os perigos da automedicação aumentam. Há vários riscos associados: reação alérgica, intoxicação e o não tratamento da doença. Na realidade, é um erro frequente achar que uma doença viral pode ser combatida com antibacterianos.

– Não tomar a dose recomendada: a medicação é prescrita caso a caso. Ou seja, o médico escolhe a dose adequada ao paciente levando em conta não só a doença, mas também seu peso, a idade e doenças relacionadas. Diminuir ou aumentar a dose prescrita pode trazer graves consequências para a saúde, desde um agravamento da doença até intoxicação por excesso de medicação. Não se esqueça, por isso, de seguir sempre o tratamento exatamente como foi prescrito.

– Esquecer a hora de tomar o antibiótico: este talvez seja um dos erros mais frequentes.

– Não fazer o tratamento durante o tempo indicado: um antibiótico não serve para tratar sintomas, mas para tratar uma doença. Ainda que os sintomas melhorem, isso não significa que o paciente esteja curado. Parar o tratamento antes do tempo indicado pode fazer com que a bactéria se torne mais resistente e, por consequência, mais difícil de combater.

– Combinar medicamentos: existem diversas classes de medicamentos que interagem entre si, afetando sua eficácia. É o que acontece com os antibióticos e os anticoncepcionais, por exemplo. Além disso, esteja atento à bula do medicamento, onde se pode confirmar as possíveis interações e saber quais os medicamentos que devem ser evitados em conjunto.

– Não tomar com o líquido certo ou misturar com os alimentos errados: o líquido mais indicado para acompanhar a ingestão de qualquer medicamento é a água. Alguns antibióticos podem ter a sua eficácia comprometida se ingeridos com outros líquidos, como o leite. No entanto, pode haver algum medicamento que seja melhor absorvido na presença de uma bebida específica. Mas isso, só mesmo o seu médico poderá dizer.

– Tomar antibióticos com álcool: o álcool pode potenciar ou neutralizar os efeitos de um medicamento. Em muitos casos, ativando enzimas que transformam o medicamento numa substância tóxica para o organismo.

– Não prestar atenção aos sintomas: se o antibiótico causar erupção cutânea, prurido, dificuldade em respirar ou qualquer outra reação que não faça parte do conjunto inicial de sintomas, aconselhe-se com seu médico. Esses sinais podem indicar uma alergia – e manter o tratamento, esperando que os sintomas passem por si, pode agravar ainda mais o seu quadro clínico.

– Estar fora da validade: parece básico, mas a verdade é que não são raros os casos de intoxicação por causa de um medicamento fora de validade.

A Covisa acha ideal que o antibiótico seja sempre dispensado pelo farmacêutico?

O farmacêutico, atualmente, se apresenta como o membro da equipe de saúde mais acessível e primeira fonte de assistência e aconselhamento em cuidados gerais de saúde. De acordo com a Organização Mundial da Saúde, o uso racional de medicamentos ocorre quando “pacientes recebem medicamentos apropriados para suas condições clínicas, em doses e períodos adequados e ao menor custo”. O uso racional de medicamentos é o principal objetivo da dispensação.

A orientação deve incluir informações em linguagem clara e objetiva, suficientes para o uso e armazenamento adequados, além de coibir a automedicação e o abandono do tratamento.

A dispensação não é apenas o ato de aviar a prescrição, pois é nesse momento que o farmacêutico orienta o paciente sobre o uso correto, seguro e racional de medicamentos, dando ênfase à dosagem, possíveis interações com medicamentos e/ou com alimentos, reações adversas potenciais e condições de conservação dos medicamentos.

Vale lembrar que a dispensação é uma atividade estratégica, pois é uma das últimas oportunidades de identificar, corrigir ou reduzir possíveis riscos associados à terapia medicamentosa. Quando realizada de forma ética, legal e tecnicamente correta, o paciente percebe a melhora de sua qualidade de vida, o que fortalece o vínculo com o farmacêutico e o reconhecimento desse profissional como agente de saúde e da farmácia como estabelecimento de saúde.

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