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Colesterol em excesso, mata
06 jul '18

Foto: © Andrey Popov

Segundo dados da Organização Mundial da Saúde, cerca de 17 milhões de pessoas morrem todos os anos no mundo por doenças cardiovasculares – e uma das causas principais, aliada a sedentarismo e tabagismo, são altos índices do chamado colesterol “ruim” no sangue.

Com a proximidade do Dia Nacional do Controle do Colesterol, que se celebra em 8 de agosto, os cardiologistas tentam esclarecer que colesterol nem sempre é vilão: trata-se de um tipo de gordura encontrada normalmente no corpo humano que tem o papel vital de manter as células funcionando adequadamente.

Na verdade, existem dois tipos de colesterol na corrente sanguínea: o LDL, conhecido como “ruim”; e o HDL, que protege o coração de doenças e, por isso, é considerado “bom”. O colesterol ruim está presente principalmente em alimentos gordurosos de origem animal. Por isso, mudanças no estilo de vida, incluindo adoção de dieta saudável, são fundamentais para o controle do colesterol. Mas a farmácia também colabora – e muito – para a normalização do colesterol, através das eficientíssimas estatinas, um dos grandes avanços da farmacologia no século 20 e, provavelmente, o maior sucesso comercial da indústria farmacêutica em todos os tempos, apesar das polêmicas que hoje cercam essa classe de medicamentos.

Quando falam em controle do colesterol, os médicos estão se referindo ao LDL, o chamado “colesterol ruim”, presente nos alimentos gordurosos, que facilita a entrada do colesterol nas células, fazendo com que o excesso seja acumulado nas artérias sob a forma de placas de gordura. É isso que causa o “entupimento” das artérias e os acidentes cardiovasculares. Já o HDL, o colesterol bom, deve ser estimulado sobretudo por meio de atividades físicas regulares, pois “expulsa” o colesterol ruim das células e facilita a sua eliminação do organismo. O colesterol elevado é um problema sempre mais grave para os indivíduos com alta propensão a ter um infarto– ou seja, tabagistas, sedentários, hipertensos e com mais de 50 anos de idade. Nesses casos, a gordura em excesso acelera o processo de “entupimento” das artérias.

Segundo parâmetros divulgados pela Sociedade Brasileira de Cardiologia, os níveis ideais de colesterol no sangue são de 70mg/dL, não ultrapassando 100mg/dL. Mas de acordo com estudo recente, para pacientes de muito alto risco cardíaco, a nova recomendação de meta para o LDL deve ser < 50 mg/dL e não mais 70mg/dL recomendados anteriormente.

Segundo o cardiologista Otavio Gebara, diretor clínico do Hospital Santa Paula, os problemas cardiovasculares causados pelo colesterol já começam a ser construídos na primeira infância, antes dos cinco anos de idade. “O processo de depósito de gorduras nas artérias começa bem cedo. Existe uma interação entre os fatores genéticos e ambientais, mas também depende do estilo de vida, se a criança se alimenta de forma adequada ou não”, explica ele. Gebara esclarece que muitos fatores podem contribuir para o aumento do colesterol - como tendências genéticas ou hereditárias, obesidade e falta de atividade física.

No entanto, um dos fatores mais determinantes é mesmo a dieta. Cerca de 70% do excesso de colesterol LDL é produzido pelo fígado e o restante (30%) vem da ingestão de alimentos ricos em gordura. Como o excesso de colesterol LDL não apresenta sintomas, os médicos recomendam fazer dosagens com frequência – principalmente se a pessoa ingere muita gordura saturada, está acima do peso, é sedentário ou tem histórico familiar de morte por infarto.

Estatinas: uma revolução

Os tratamentos com as chamadas estatinas, medicamentos que agem no metabolismo do colesterol, sem dúvida reduzem os níveis dessa gordura no sangue e, consequentemente, o risco de acidentes cardiovasculares. Seu sucesso comercial e seu prestígio junto aos médicos, nos últimos 30 anos, foram estrondosos. Recentemente, a divulgação de efeitos colaterais adversos num número limitado de casos esfriou um pouco esse entusiasmo. A controvérsia sobre o caráter nocivo, ou a ineficácia, dos tratamentos preventivos com estatinas aumentou em alguns países, incluindo a Grã-Bretanha, onde 200 mil pacientes deixaram de tomá-las nos últimos anos. Mas novos estudos restabeleceram a verdade relativa. “Nossos resultados mostram que a quantidade de pessoas que evita acidentes vasculares cardíacos, ou cerebrais, graças a terapias com estatinas, é muitíssimo maior do que aqueles que sofrem efeitos colaterais”, afirmou o professor Rory Collins, da Universidade de Oxford, que revisou um grande número de estudos junto com outros pesquisadores.

Concretamente, cada redução de 2 mmol/l da taxa de colesterol graças a estatinas administradas durante pelo menos cinco anos em 10 mil pacientes evita acidentes cardiovasculares em cerca de mil pessoas, 10% do total, que tiveram episódios cardíacos anteriores, como infartos, e a cerca de 500 que apresentam apenas fatores de risco (fumantes, sedentários, histórico familiar, etc.). Já os efeitos colaterais - como dores e fraqueza muscular – apareceram em somente um caso entre 10 mil pacientes que tomam 40 mg de atorvastatina por dia. O risco de diabetes ocorreu entre 10 e 20 casos.

A nova geração

Mas a indústria avançou. A chegada dos inibidores de PCSK9 (evolocumabe) mudou o tratamento do colesterol ruim alto (LDL-c), principalmente para pacientes com dificuldade de atingir as metas estabelecidas pelos especialistas com a prática de exercícios, hábitos saudáveis e fazendo o uso da terapia padrão –as estatinas. Hoje, os pacientes que fazem uso deste tipo de tratamento conseguem baixar drasticamente os níveis de LDL-c. “Os inibidores de PCSK9 trouxeram uma quebra de paradigma para o tratamento do colesterol alto com uma queda nos níveis de LDL-c que não era possível com o tratamento padrão, principalmente para pacientes com um risco maior de ter um evento ou morte cardiovascular. Hoje conseguimos que esse paciente chegue a níveis inferiores a 70mg/dL com mais facilidade, por isso baixamos a recomendação. Quanto menor o LDL, melhor para o paciente”, diz o Dr. André Arpad Faludi, presidente da Sociedade Brasileira de Aterosclerose e um dos coordenadores da diretriz atualizada.

Hipercolesterolemia: colesterol de nascença

Há uma forma de excesso de colesterol que não tem nada a ver com estilo de vida – mas com genética. Cerca de 50% dos homens com a chamada hipercolesterolemia familiar (HF) serão vítimas de infarto antes dos 50 anos e, se isso não acontecer nessa faixa etária, com certeza quase todos eles terão infartado ao chegarem aos 70 anos. Entre as mulheres, o quadro também é alarmante: 12% delas sofrerão infarto em torno dos 50 anos, e quase a totalidade desse grupo (74%) terá esse mal ao chegarem aos 70 anos. Em casos extremos, ainda adolescentes, eles têm que ser submetidos à cirurgia de revascularização do miocárdio.

São mais de 350 mil brasileiros nessa condição, sendo que menos de 3.500 deles sabem que possuem essa bomba-relógio no peito que precisa ser urgentemente desarmada com tratamento precoce, à base de medicamentos e mudanças de estilo de vida. “Com o tratamento correto, é possível retardar de 10 a 30 anos a mortalidade em pessoas com esse mal, com melhora substancial de sua qualidade de vida, já que elas terão menos eventos cardiovasculares ao longo dos anos”, explica o cardiologista do Incor Dr. Raul dos Santos Filho, diretor da Unidade Clínica de Lípides do Instituto do Coração.

Infelizmente, cerca de 614.000 brasileiros – aqueles 90% que sequer imaginam que têm a doença – não se beneficiarão dessa possibilidade que lhes abre um diagnóstico correto para a HF, por ignorarem a sua condição metabólica. É bem provável que uma parte deles passará anos indo de médico em médico sem ter solução para seu colesterol alto.

Para alertar médicos e a população sobre a necessidade do diagnóstico e tratamento precoces da doença, o Instituto do Coração e a Associação Brasileira de Hipercolesterolemia Familiar – AHF (entidade formada por pessoas com HF e seus familiares) realizam regularmente campanhas aberta à população para a orientação e detecção precoce de colesterol alto de origem familiar.

O chamado Hipercol Brasil foi criado em 2009, com a ambiciosa meta de diagnosticar, direta ou indiretamente, toda a população brasileira vítima da hipercolesterolemia familiar, mal que acomete 1 em cada 300 habitantes.

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