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Gratidão aos professores
10 out '16

Foto: © michaeljung

O Grupo Escolar João Manoel do Amaral, no bairro da Fonte Luminosa, em Araraquara, interior de São Paulo, era frequentado por alunos, em sua grande maioria, de classe econômica e social remediada para baixo. Só me lembro de dois que tinham pais engenheiros – os outros eram filhos de lavradores, leiteiros, ferroviários, motoristas, pedreiros. A escola tinha salas de alvenaria no prédio central, localizado logo após o portão de entrada, e outras, mais precárias, provisórias, na parte do fundo.

Se algum psicólogo, especializado em análise comportamental, fizesse um estudo das probabilidades do futuro profissional dessa garotada, com certeza os prognósticos seriam desesperadores. Mas, se as condições dessas crianças e de suas famílias eram tão desalentadoras, como muitas conseguiram se destacar e se projetar nas atividades que abraçaram? A resposta é simples e direta – tiveram a sorte de contar com professoras excepcionais.

Todas eram bem formadas, inteligentes, de boa estrutura familiar, muito estudiosas e profissionais competentes. Além de ensinar as matérias escolares, eram também responsáveis pela formação da personalidade daqueles alunos, que um dia precisariam sair de casa para enfrentar uma vida muito diferente da que estavam acostumados. Ainda me lembro do nome de algumas dessas heroínas: Rita, Aparecida, Vera, Dorvalina, Terezinha, Elizabeth. Uma dessas professoras, entretanto, se sobressaía pela personalidade forte e inspiradora: Julieta Esther Amaral. Chegou a ocupar a direção da escola pela naturalidade com que exercia a liderança e por sua capacidade de realização. Quando começava a falar, todos se calavam quase que em reverência, diante do poder da sua comunicação.

Impunha suas ideias por uma inabalável segurança, ao mesmo tempo em que conquistava por sua meiguice e bondade. Era um prazer ouvi-la. Sua voz sonora, forte, bem timbrada, preenchia todo o ambiente. Articulava as palavras com facilidade e construía as frases com perfeição. Os outros professores a admiravam e diziam que ela era o próprio exemplo do que ensinava, pois conjugava os verbos e fazia as concordâncias com tanta perfeição que seria possível transcrever o que dizia sem nenhuma revisão.

Com seus olhos penetrantes, olhava um a um e mantinha a atenção de todos. Era sempre elegante. Bonita, alta, com postura correta, gesticulação graciosa, nunca se descuidava. Sua mensagem sempre tinha sentido e era coerente. Falava com as crianças ou com os outros professores sempre com a mesma consideração. Nós nos sentíamos importantes e respeitados pela maneira como éramos tratados. Falava de um futuro que não conhecíamos, nem que imaginávamos existir. Era eloquente quando mostrava que só poderíamos pretender um futuro melhor se nos dedicássemos ao aprendizado.

E sua disposição para ensinar era tamanha que todos queríamos aprender. Repreendia com severidade quem não estudava e se mostrava triste quando alguém não conseguia aprender, como se ela própria estivesse fracassando. Vibrava e comemorava como se fosse uma criança com a conquista dos seus alunos e, de longe, acompanhava a trajetória de cada um. Certo dia, quando eu já não era mais seu aluno, me viu com torcicolo. Segurou meu braço e me levou até sua sala – em pouco tempo, com alguns puxões e algumas torcidas, já tinha posto tudo no lugar. Não sei o que teria sido da minha vida e de muitos de meus colegas se não tivéssemos a felicidade de encontrá-la. Todos os seus alunos, independentemente da atividade que abraçaram e do rumo que deram à sua vida, devem muito das suas conquistas a essa mulher que, mais do que uma professora, foi a grande inspiradora de um futuro diferente, melhor e mais feliz para todos nós.

Por: Reinaldo Polito - Presidente da Academia Paulista de Educação, mestre em Ciências da Comunicação, palestrante, professor de Oratória e escritor. Publicou 27 livros com mais de um milhão e quinhentos mil exemplares vendidos em todo o mundo. Seu site www.polito.com.br

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