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Legislação do trabalho ou redução de oportunidades?
20 abr '16
Foto: © Sergey Nivens

Há anos vivemos uma realidade em nossas empresas: o atraso nas relações do trabalho.

Como empresário, compartilho com os colegas a minha dificuldade diária em estabelecer uma relação com os colaboradores da minha farmácia. Não pelo relacionamento cotidiano que, ao longo dos meus mais de 20 anos de varejo, sempre foi pautado pela honestidade e cordialidade com as pessoas. Mas pela enorme dificuldade que a legislação do trabalho impõe na relação entre empresa e empregado.

É muito difícil estabelecer critérios de desempenho dos colaboradores com fundamento no mérito. Quando temos na equipe empregados que desempenham a mesma função, mas com habilidades diferentes, somos orientados a não estabelecer diferenciações, para não causar o famoso passivo trabalhista da equiparação salarial.

Quando abrimos oportunidades para o funcionário ser comissionado, com foco em estabelecer uma clientela, essas comissões representam um aumento de custo para a empresa decorrente dos encargos que não necessariamente serão – quase sempre não são – recuperados pelo aumento nas vendas, pois o estímulo financeiro atrelado à comissão faz com que se aumentem os descontos para a realização das vendas. Isso, ao final, resulta em diminuição de margem, o que já não compensa mais os custos envolvidos no comissionamento. O resultado dessa equação é ruim para o trabalhador, pois hoje temos atendentes com salários fixos, mas também para a empresa, que não obtém o mesmo empenho do empregado comissionado.

É uma morte silenciosa e lenta dos dois lados da relação – empregado e empregador.

E nossa dificuldade se torna ainda maior e paradoxal se fixarmos nossos olhares para as discussões sobre a farmácia do futuro e o papel do farmacêutico.

Se considerarmos que, quando estimulamos o farmacêutico a ser proativo no atendimento – frise-se: atendimento, não venda – temos que aceitar as imposições ideológicas sobre a profissão farmacêutica que não acompanham a dinâmica do varejo. Ou ceder esse profissional de nível superior para prestar contas ao governo nos SNGPCs e demais burocracias da nossa atividade, isto é, prestar contas a um governo que tem enorme dificuldade de prestar contas à sociedade, diga-se.

Hoje não temos condições de estimular financeiramente o farmacêutico para fazer esses atendimentos, a questionar o cliente, a se apresentar como profissional de saúde que é e que está à disposição para atendê-lo – mesmo que não compre na sua farmácia. Concluímos que nossas saídas estão cada vez mais complicadas.

Para que os serviços farmacêuticos realmente emplaquem, o farmacêutico depende de compensação financeira – e essa compensação não vem do consumidor e dificilmente virá, principalmente considerando o panorama das farmácias independentes. Estamos estagnados.

Veja como é complexo para nós, empresários de farmácia independente: temos no mínimo um profissional de saúde com grau superior, que, por questões éticas e profissionais, não pode ser estimulado a fazer vendas, mas deve atender o cliente que procura a farmácia. Se utilizarmos os mecanismos legais de gratificação para estimular o empregado, como comissionamento ou participação nos resultados, por exemplo, temos que, além de arcar com os encargos que essas gratificações automaticamente acrescentam à folha de pagamento, quase na mesma proporção do que é pago ao colaborador, ajustar esses estímulos financeiros sobre a nossa enfraquecida margem – que se reduz cada vez mais diante dos inúmeros concorrentes e da política de descontos comum em nosso setor.

Ao final, verificamos que a conta não fecha.

Nem com todo o apoio de profissionais, de entidades e outras ferramentas de gestão, sobreviveremos sem uma reforma na legislação do trabalho – não para aumentar o lucro, mas para tornar equilibrável o capital investido no negócio (capital humano, inclusive) e o seu retorno.

As entidades dos profissionais farmacêuticos deveriam apoiar as empresas e não defender direitos que estão deixando de existir, não por práticas ilegais, mas por ausência de viabilidade econômica. Cada vez mais, vamos ter cada vez menos funcionários bem remunerados em farmácias, pois, como disse, a conta não está fechando.

E isso vale para todas as empresas, pois, com juros extorsivos como os do mercado brasileiro, quem tem muito capital não vai querer investir em negócios com retornos próximos ao que consegue nos bancos de investimento, com risco muito menor.

Já para o pequeno investidor ou empresário, o risco é perder seu patrimônio para a difícil missão de equilibrar a conta ou simplesmente estagnar, sem gerar mais empregos, sem gerar novas oportunidades.

Em qualquer uma dessas situações vivenciadas por nós, empresários, sabemos e temos a certeza de que quem está perdendo não somos nós, mas o Brasil.

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