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Medicina da mulher. Desafios de uma nova era
18 abr '17

Foto: © Kaspars Grinvalds

Médico ginecologista e chefe do setor de Saúde e Medicina Sexual da Faculdade de Medicina do ABC, o Dr. Eliano Pellini também é um dos mais requisitados palestrantes brasileiros nas áreas de Saúde, Sexualidade Humana e Qualidade de Vida. Ele consegue mesclar temas eminentemente técnicos, como a reposição hormonal, com abordagens humanizadas da medicina feminina neste tempos de “empoderamento” da mulher. Ele falou à Revista ABCFARMA.

Sua disciplina na Faculdade do ABC se chama “Saúde e Medicina sexual”. Como define “medicina sexual” nesse contexto acadêmico?

A sexualidade humana e seu estudo compreendem várias disciplinas. Na área hormonal, principalmente. Na modulação dos mediadores cerebrais, a atenção é mais clínica do que psicológica, fazendo com que a participação médica vá além da terapia sexual ou da psicoterapia de grupo. A prescrição de hormônios é a atividade mais importante da medicina sexual, além do estudo da interferência de outras drogas na função sexual.

O comportamento feminino, incluindo o comportamento sexual, tem a ver com os hormônios que a mulher produz?

O comportamento sexual tem todo o seu aprendizado dirigido pelo surgimento dos hormônios sexuais na adolescência. Depois, os hormônios sexuais estrogênios e testosterona são fundamentais na integridade e na manutenção das mucosas vaginais e no estimulo da receptividade e do desejo sexual. Nesse contexto, o hormônio testosterona é o promotor do interesse e principal desencadeador de estímulos sexuais.

Por que a mulher tem mais episódios de depressão nos períodos de menstruação e na pós-maternidade?

A depressão pós-parto e a TPM pré e pós- menstruais ocorrem por presença de substâncias inflamatórias que circulam no cérebro durante a perda sanguínea e a descamação do endométrio. A queda de serotonina cerebral e a própria perda sanguínea promovem variação de humor e consequentes flutuações entre tristeza, euforia e depressão.

Que armas a ginecologia tem hoje para modular essas tempestades/carências hormonais?

O melhor tratamento para a TPM e variações hormonais pré e pós- menstruais é a suspensão da menstruação – seja com DIUs de levonorgestrel ou o uso de pílulas de uso contínuo, sem pausa. Fora isso, o uso de hormônios sexuais adequados à idade e o uso de drogas inibidoras da recaptação de serotonina colaboram muito para a estabilização desses sintomas clínicos. O uso de novas formulações de anticoncepcionais modernos e o projeto de diminuir sempre o número de menstruações ajuda no controle desses períodos.

A TPM é tudo isso que as mulheres dizem que sentem – ou há nessa descrição um pouco de ficção dramática, como sustentam alguns homens?

A TPM pode ter uma incidência em 25% das mulheres e afeta significativamente a qualidade de vida das portadoras da síndrome. Cerca de 5% das portadoras de TPM têm uma manifestação mais grave, chamada síndrome disfórica pré-menstrual que causa um distúrbio psicológico muito grave e, aí sim, pode interferir nas relações pessoais e profissionais das portadoras dessa variante.

E na menopausa? O que acontece com a mente/corpo da mulher nesse momento?

Menopausa é o nome que se dá à ultima menstruação de uma mulher. O período de três anos antes e três anos depois da menopausa é chamado climatério. E o que o caracteriza é a gradual redução da produção de hormônio feminino nos ovários. As manifestações clínicas, físicas e psicológicas são muito incômodas e prejudicam muito a qualidade de vida da mulher. Das ondas de calor chamadas fogachos à secura vaginal que prejudica a atividade sexual e a perda gradual da reserva óssea levando à osteopenia e à osteoporose.

Qual é sua postura em relação à reposição hormonal?

A terapia hormonal, quando bem indicada e dentro dos limites adequados de uso em mulheres saudáveis, será sempre um benefício de proteção e manutenção das condições femininas, elevando a um nível de excelência a manutenção da capacidade sexual, emocional e física da mulheres pós-menopausa.

O que as farmácias vendem que podem ajudar uma mulher em sua transição entre os diversos períodos hormonais?

Há hoje uma oferta de muitos medicamentos indicados para terapia hormonal. Desde os anticoncepcionais amplamente conhecidos, como etinil estradiol e seus diversos progestagênios, até os últimos produtos contendo 17 beta estradiol e valerato de estradiol – compostos que pretendem ampliar a segurança e a adesão aos anticoncepcionais, que podem ser usados nas mulheres sem contraindicação até a transição menopáusica. O bloqueio da menstruação é uma nova modalidade de uso dos anticoncepcionais de uso contínuo e a terapia hormonal pós-menopausa complementa a prevenção e a proteção das doenças inflamatórias do envelhecimento.

A mulher de hoje, do ponto de vista das crises hormonais e emocionais, é diferente da mulher que você estudou em seu curso de Medicina, nos anos 70?

As necessidades profissionais modificaram muito as expectativas das mulheres atuais. A contracepção e o atraso para a maternidade modificaram desde o número de menstruações por vida fértil até o surgimento de doenças associadas a esse fenômeno. A endometriose, por exemplo, é uma doença muito prevalente hoje e pouco conhecida nos anos 70. O empoderamento feminino está trazendo mudanças físicas e emocionais na mulher atual – que não têm comparação com os desafios que um ginecologista enfrentava na sua formação, como no meu caso, há 40 anos.

Por: Mauro Pacanowski, Professor FGV, UFRJ e ESPM e consultor de empresas.

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