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O bloco da prevenção
04 jan '18

Foto: © Kaspars Grinvalds

Nos anos 80 e 90, toda uma geração de brasileiros foi bombardeada pela terrível face da Aids, então uma doença incurável e fatal. O surgimento dos coquetéis antivirais, no começo dos anos 2000, mudou radicalmente o cenário da moléstia. Ela ainda é incurável – mas se tornou crônica, não mais mortal. O índice de sobrevida, e de qualidade de vida com o vírus, aumentou exponencialmente – mas esse quadro de esperança gerou um efeito colateral perigoso: o relaxamento das medidas de prevenção.

A geração atual, que não foi submetida àquele quadro em que os portadores de HIV definhavam até a morte, já não toma as medidas necessárias de proteção – abrindo mão do uso do preservativo. Com isso, o total de novas infecções no Brasil subiu 3% nos últimos seis anos, contra uma queda média de 11% no resto do mundo desenvolvido. O Carnaval – com sua tendência à liberalização dos costumes – pode ser um bom pretexto para se retomar um programa de cuidados.

Pela alegria segura – e pela vida.

A preocupação deve existir ao longo do ano todo, mas no Carnaval se intensificam naturalmente as campanhas de prevenção a doenças sexualmente transmissíveis. Este ano, o esforço é de elevar o tom de alarme para os mais jovens, grupo no qual o Ministério da Saúde vem constatando menor hábito de usar preservativos – e maior índice de contágio por HIV. A campanha chama atenção para o alto número de pessoas que têm HIV mas ainda não sabem – aproximadamente 112 mil brasileiros – e para os cerca de 260 mil que vivem com o vírus mas ainda não se tratam, o que as torna propagadores da doença. A falta de prevenção no início da vida sexual tem preocupado, afirma a Dra. Adele Schwartz Benzaken, diretora do Departamento de Infecções Sexualmente Transmissíveis, Aids e Hepatites Virais do Ministério da Saúde. Nos últimos cinco anos, as pesquisas mostram que apenas 56,6% dos jovens entre 15 e 24 anos usam camisinha com parceiros eventuais. O principal foco do Ministério da Saúde – que, como todos os anos, vai distribuir milhões de preservativos, é a prevenção de HIV/Aids. Mas especialistas alertam para o risco de propagação de outras doenças, como HPV, herpes genital, gonorreia, hepatite B e C e sobretudo a velha sífilis – que vem apresentando aumento no número de ocorrências no Brasil, acompanhando uma tendência mundial.

Um resumo sobre cada uma dessas doenças preveníveis por camisinha.

HIV/Aids

O tratamento contínuo ao HIV pode controlar a doença, garantir a sobrevida dos infectados e tornar o vírus indetectável (o que equivale a prevenir a transmissão com uma segurança de 96%). Mas não pode curá-la. O teste rápido costuma detectar a infecção cerca de 15 dias após o contágio. As campanhas costumam focar no uso da camisinha como método de prevenção, mas é essencial conhecer também a proteção disponível para casos de relação de risco desprotegidas – a chamada profilaxia pós-exposição, ou PEP, um conjunto de medicamentos contra o HIV que devem ser ingeridos por 28 dias no período imediatamente após o possível contágio.

Sífilis

Transmitida pela bactéria Treponema pallidum, a infecção apresenta diferentes estágios, do primário ao terciário, e tem maior potencial de infecção nas duas primeiras fases, que costumam ocorrer até 40 dias após o contágio. É transmitida por relações sexuais ou pode ser passada da gestante para o bebê. Os sintomas são feridas na região genital (na fase primária) e manchas no corpo que sugerem uma alergia (na fase secundária). O tratamento da doença é gratuito na rede pública, feito com penicilina. A sífilis pode levar à má-formação do feto: surdez, cegueira e deficiência mental.

HPV

O Papilomavírus humano existe com mais de 200 variações e se manifesta por meio de formações verrugosas – que podem aparecer no pênis, vulva, vagina, ânus, colo do útero, boca ou garganta. O sexo é a principal forma de transmissão do HPV, seja pelo coito ou pelo sexo oral. O HPV é uma preocupação grave de saúde pública pelo potencial de alguns tipos do vírus causarem câncer, principalmente no colo do útero e no ânus, mas também na boca e na garganta, que vêm aumentando entre os jovens. No fim do ano passado, o Ministério da Saúde anunciou que a vacina quadrivalente que protege contra quatro tipos de HPV passaria a ser oferecida também para meninos, na faixa de 12 a 13 anos. Até agora, a vacina só era disponibilizada para meninas de 9 a 13 anos (ver matéria sobre vacinas).

Gonorreia

A doença é causada pela bactéria Neisseria gonorrhoeae, que infecta sobretudo a uretra. O sintoma mais comum é a presença de corrimento na região genital, mas a infecção pode causar dor ou ardor ao urinar, dor ou sangramento na relação sexual e, nos homens, dor nos testículos. A maioria das mulheres infectadas não apresenta sintomas. O tratamento é feito com antibiótico e deve ser estendido ao parceiro, mesmo que este não tenha sintomas. Quando não tratada, a infecção pode atingir vários órgãos, como o testículo, nos homens, e o útero e as trompas, nas mulheres – e pode causar infertilidade e complicações graves.

Herpes genital

Transmitido pela relação sexual com uma pessoa infectada, o vírus do herpes causa pequenas bolhas e lesões dolorosas na região genital masculina e feminina. As feridas podem acompanhar ardor, coceira, dor ao urinar e mesmo febre, e os sintomas podem reaparecer ou se prolongar quando a imunidade está baixa.

“O herpes não tem cura. A partir do momento em que você tem uma infecção, você pode ter vários episódios ao longo da vida. A única forma de prevenção é o preservativo”, ressalta a infectologista Brenda Hoagland, da Fiocruz.

Hepatite B ou C

A hepatite B é transmitida sexualmente e também por transfusão de sangue e compartilhamento de material para uso de drogas, entre outros. As mesmas formas valem para a hepatite C, mas a transmissão sexual é mais rara, por isso ela não é considerada propriamente uma infecção sexualmente transmissível. De acordo com o Ministério da Saúde, milhões de brasileiros são portadores dos vírus B ou C e não sabem. A vacina contra a hepatite B é gratuita e disponível na rede pública. Como a doença é considerada “silenciosa”, é indicado realizar exames de rotina que detectam todas as suas formas. Ainda não há vacina para a hepatite C.

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