notícias
O Dia Nacional de Prevenção e Combate à Hipertensão
19 abr '18

Foto: © Photographee.eu

A data é celebrada em 26 de abril e visa a conscientizar os portadores da doença, que mata 300 mil brasileiros anualmente, os benefícios e, mais do que isso, a necessidade de se controlar a pressão arterial – prevenindo moléstias graves e potencialmente fatais, como infarto do miocárdio e derrame cerebral. Aqui, o Dr. Sergio do Carmo Jorge, cardiologista do Hospital Sírio-Libanês, explica tudo o que é preciso saber sobre essa doença tão silenciosa quanto perigosa.

Qual é o papel da hipertensão entre os fatores de risco para as doenças cardiovasculares?

A hipertensão arterial há muito tempo é considerada um dos principais fatores de risco e aceleração da doença cardiovascular obstrutiva – a chamada aterosclerose, ou seja, obstrução e endurecimento das artérias de todo o organismo, principalmente dos vasos do coração e do cérebro. É uma doença que, quando presente, é geralmente assintomática – e aí está a sua pior consequência, pois o portador não tem consciência de que está com níveis elevados de pressão arterial. Não à toa, a hipertensão é chamada de assassina silenciosa. Sua primeira manifestação pode ser um ataque cardíaco ou um derrame cerebral. A aterosclerose é multifatorial, portanto a hipertensão é apenas um desses fatores, mas não cabe, no momento, discorrermos sobres os outros fatores, como hábitos de vida inconvenientes ou indesejáveis – fumo, álcool, vida sedentária etc. Vamos nos ater aqui apenas à hipertensão arterial.

De modo geral, os cuidados com a pressão arterial ainda são negligenciados no Brasil?

Sim, num país com pouca instrução médica e orientação, e com as dimensões do nosso Brasil, o papel exercido pela imprensa, como esta Revista ABCFARMA, é de suma importância. Quanto mais esclarecimento sobre a doença, menos complicações e maior qualidade de vida. Há pessoas que sequer mediram uma única vez sua pressão arterial.

Como pacientes hipertensos podem ser convencidos a tomar diariamente os medicamentos anti-hipertensivos pelo resto da vida se não sentem nada?

Com segurança e credibilidade, olhando nos seus olhos e dizendo a eles que o que estamos recomendando surgiu de estudos multicêntricos bem elaborados, que mostraram, sem dúvida alguma, que os pacientes que cuidam da sua pressão arterial vivem mais e melhor, mesmo sem nada sentir. Alguns desses estudos duraram 50 anos, com o acompanhamento de milhares de pacientes durante décadas, e, inequivocamente, mostraram que as complicações cardíacas e neurológicas são proporcionais ao nível de pressão arterial.

E por falar em não sentir nada, existem ou não sintomas clássicos tardios da hipertensão?

Sim, sem dúvida, mas aí é que reside o problema: quando sentimos algo ocasionado pela pressão elevada, já estamos numa situação de perda de função de algum órgão-alvo, num estágio avançado, com consequências graves para coração, rins, retina e outros órgãos. Acima de cinco anos com pressão alta, sem sentir nada e sem tratar, a situação pode se tornar bastante complicada – e aí estaremos tratando as consequências, não mais a causa. Digo para meus pacientes: se você questiona hoje tomar um medicamento todos os dias, poderá ter que vir a tomar vários medicamentos por poucos anos – porque não terá muito tempo de vida para tomá-los.

A prescrição dos medicamentos certos para cada tipo de hipertenso é uma dinâmica de “tentativa e erro”?

Não existe uma medicação padronizada para todo e qualquer paciente hipertenso – senão o Dr. Google ou o farmacêutico o fariam. Os pacientes devem ser individualizados, até mesmo de acordo com a genética, cor da pele, raça, co-morbidades (doenças associadas) e idade.

Poderia resumir as diferentes classes terapêuticas dos anti-hipertensivos?

Eles são divididos em vários grupos: Betabloqueadores, Diuréticos, vasodilatadores, como os Inibidores da Angiotensina ou Enzima de Conversão, vasodilatadores diretos ou alfa-dilatadores. Eles não são utilizados como uma panaceia, mas individualizados de acordo com características do paciente.

Anti-hipertensivos de novas gerações são mesmo mais eficientes e mais tolerados?

A tendência da medicina e da indústria farmacêutica é sempre na direção de produzir medicamentos mais eficientes, com ação prolongada, que não necessitem de doses diárias para aumentar a adesão por parte do paciente. E que não tenha efeitos colaterais que façam o paciente abandonar o tratamento.

Num passado recente, 14 por 9 era apresentado como o nível ideal da pressão arterial. Mas, ao longo do tempo, esse número foi baixando. Qual é hoje o limite seguro e desejável?

As últimas recomendações deixam claro que o objetivo a ser alcançado é 130/80 (ou 13 por 8). Isto é: quando atingimos esse nível de pressão arterial, é fato que estamos conseguindo mudar a curva de prováveis fatalidades, como derrames cerebrais, morte e infarto do miocárdio. A dose do remédio não é medida pelo número ou tipo de medicação, mas pelo fato de que você alcançou o objetivo, ou seja, 130/80.

A pressão arterial tende a subir com a idade?

Sim, mas somente a pressão sistólica, ou seja, a máxima – porque esta é fruto do endurecimento das artérias. Porém, com maior controle dos fatores de risco, acredita-se que ela não deva subir tanto como vemos hoje em dia, porque estamos preservando a arquitetura arterial sem rompimento das fibras elásticas e aumento indesejável da camada muscular. É baseado nesses dados que, quanto mais precocemente atuarmos, melhor será o resultado e, consequentemente, a qualidade e a perspectiva de uma vida mais longa e melhor. Há aldeias no mundo, como na Itália e na China, onde muitos habitantes chegam a 110 anos. Seriam eles portadores de genes protetores que não se cansam e os protegem, não deixando a pressão aumentar o colesterol e outros fatores? Esta é uma das atuais linhas de estudo.

+ NOTÍCIAS