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Por que um medicamento não funciona?
06 dez '17

Foto: © Ingo Bartussek

Quem nunca ouviu a frase “esse medicamento não funciona pra mim”? Os profissionais da área da saúde, entre os quais os farmacêuticos e balconistas de farmácias, ouvem isso com uma frequência preocupante. Afinal, são eles que lidam com os milhares de pacientes cujas vidas e bem-estar dependem de medicamentos.

Quando falamos de doenças crônicas e incuráveis, essa afirmação preocupa ainda mais. Mas por que um medicamento faz o exato efeito descrito pelos laboratórios em muitos pacientes e não funciona para outros? A resposta – e a solução – está nos testes farmacogenéticos.

A resposta aos medicamentos é complexa e são vários os fatores envolvidos nesse processo – entre os quais peso, idade, sexo, hábitos alimentares e estilo de vida pouco saudável, que inclui tabagismo e alcoolismo.

Porém, na maioria dos casos, o principal fator é a genética. Cada paciente é único, com seu próprio DNA – não existem dois pacientes com a mesma identidade genética. Essa é a principal razão pela qual nem todos os pacientes respondem da mesma maneira ao tratamento padrão, desenvolvido pela indústria farmacêutica e baseado na média de respostas da população aos medicamentos. O conceito de que “uma mesma dose serve para todos” é equivocado. Daí a importância da Medicina Personalizada, onde cada paciente recebe terapia baseada no seu perfil genético, ou seja, um tratamento individualizado. Isso tem se tornado cada vez mais possível por causa da farmacogenômica, ciência que estuda como as variações genéticas afetam a resposta das pessoas aos medicamentos.

A grande maioria dos medicamentos é metabolizada no fígado. O mecanismo primário da metabolização hepática é o sistema enzimático do citocromo P450, responsável pelo efeito no organismo de cerca de 80% dos medicamentos mais utilizados atualmente. O teste farmacogenético avalia as enzimas hepáticas, determinando a sensibilidade de cada paciente aos diferentes tipos de medicamentos. O teste diz como o paciente vai responder, evitando toxicidade, por acúmulo da substância no organismo, ou falta de eficácia – situações que podem colocar a saúde em sério risco.

Todas as enzimas, incluindo as da família do Citocromo P450, são produzidas por genes específicos. Muitas pessoas possuem um gene variante que afeta a função de uma ou mais enzimas que metabolizam medicamentos. A maioria dessas variantes causa perda de função enzimática. Pacientes que possuem genes variantes são metabolizadores lentos, intermediários ou ultrarrápidos. As pessoas que metabolizam as substâncias muito rapidamente apresentam perda quase total de eficácia do medicamento. Já as que metabolizam lentamente acumulam a substância na corrente sanguínea, causando reações adversas que podem produzir sérias consequências. Nos intermediários, a eficácia também está comprometida.

Pacientes tratados com vários medicamentos ao mesmo tempo também têm um risco elevado de reações adversas e apresentam chances maiores de uma ou mais substâncias não serem metabolizadas corretamente. Aproximadamente 5% das pessoas que sofrem reações adversas morrem em decorrência do problema – sendo que 49,5% das mortes e 61% das internações são observadas em pessoas com mais de 60 anos, exatamente a faixa etária em que é mais comum o uso de vários medicamentos simultaneamente.

Qualquer paciente pode se beneficiar do teste farmacogenético, mas ele deve ser absolutamente indicado para pacientes com câncer, alterações psiquiátricas, alterações de coagulação e outras condições onde a estratégia de “tentativa e erro”, na prescrição de terapias, é de alto risco. Cabe ressaltar que, além de salvar vidas, os testes farmacogenéticos são realizados somente uma vez e ajudam a individualizar qualquer tipo de tratamento com medicamentos para o resto da vida - evitando reações adversas e maximizando a eficácia.

Mario Grieco, é médico com pós-graduação em Medicina Interna pela Universidade da Flórida (EUA) e MBA em Administração de Empresas pela mesma instituição. Presidente e fundador da Life Diagnósticos, especializada em testes genéticos e farmacogenéticos, é um dos nomes mais destacados da indústria farmacêutica, setor no qual acumula mais de 30 anos de experiência, grande parte dela nos Estados Unidos. Presidiu importantes farmacêuticas, como a Bristol-Myers Squibb no Brasil.
PARA SABER MAIS SOBRE O ASSUNTO: mariogrieco@lifediagnosticos.com.br

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