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Primavera Borelli. Dia do Professor. À mestre, com carinho
09 out '17

Foto: Reprodução

Há quase 40 anos – começou em 1978 – a professora Primavera Borelli ajuda a formar farmacêuticos de sucesso. Desde o começo deste ano, na qualidade de diretora da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da USP, a mais importante e disputada escola de Farmácia do país, seu papel nessa formação se tornou ainda mais decisivo – e por meio dela homenageamos os mestres que nos conduzem para uma carreira de sucesso com valores éticos. Graduada em Ciências Farmacêuticas pela própria USP, com mestrado em Farmácia (Análises Clínicas-área de Hematologia) e doutorado em Patologia Experimental e Comparada também pela USP, ela fala aqui sobre o futuro do farmacêutico recém-formado e de sua relação com a farmácia.

Ser professor envolve vocação?

Para ser bom professor e gostar do que faz, é preciso ter vocação. Lógico que há professores sem vocação e com treinamento para dar aulas e transmitir conteúdo. Mas, provavelmente, esses profissionais não têm uma grande interação com seus alunos e não se satisfazem com sua atividade.

Não é seu caso...

Gosto muito, muito, muito de dar aulas. A sala de aula é um dos locais onde mais gosto de estar – o outro é o laboratório. Não dei aulas neste semestre, porque foi meu primeiro semestre como diretora da faculdade e procurei me adaptar. Mas vou retomar.

Qual é sua cadeira?

Toda a área de Hematologia – Fisiopatologia, Fisiologia do Sistema Hematopoiético (os glóbulos sanguíneos normais) e Hematologia Clínica, onde se ensinam as doenças do sangue. É um desafio, porque começamos apresentando aos alunos as células normais do sangue – e eles terminam o curso fazendo diagnóstico de leucemia, que é um desafio para eles e para nós.

Quantos professores tem hoje a Faculdade de Ciências Farmacêuticas da USP?

Temos 88 professores para os dois cursos – o Integral e o Noturno. E ainda temos a Pós-Graduação, com praticamente os mesmos professores, um programa de Residência junto com o Hospital Universitário e cursos de extensão e especialização.

Recém-formados, a área preferencial dos farmacêuticos da USP ainda é a indústria?

Sim. Não apenas o chão de fábrica, mas um contingente bastante significativo de farmacêuticos recém-formados ingressa na área de assuntos regulatórios das próprias indústrias e nos serviços de atendimento ao cliente, o chamado SAC, além da área de marketing. Há um campo vasto na indústria. De qualquer forma, a demanda por farmacêuticos hoje é muito grande.

Embora sejam poucos os alunos da USP que vão para um balcão de farmácia, esse é um campo de alta demanda – pela obrigatoriedade da presença do farmacêutico durante o funcionamento das lojas. Um farmacêutico formado pela USP poderia ter um papel relevante no atendimento aos clientes?

O ideal seria esse. Sem dúvida, evoluímos no momento em que a farmácia passou para o âmbito do Ministério da Saúde – há 40 anos discutia-se a inconveniência de as farmácias estarem ligadas ao Ministério da Indústria e Comércio. Evoluímos. Mas deveríamos evoluir mais. A meu ver, a maior parte do capital financeiro de uma farmácia deveria ser de um farmacêutico – porque aí se minimizaria a pressão do lucro a qualquer custo. Seria o ideal se o farmacêutico tivesse autonomia para fazer um aconselhamento, um acompanhamento do cliente mais adequado.

E isso se aprende na escola?

O que caracteriza nossa aluno é a capacidade de auto aprendizado. Se ele não conhecer determinado assunto, ele sabe onde procurar. E isso é fundamental nos dias de hoje.

Na grade curricular da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da USP há matérias que ensinam, por exemplo, interação de medicamentos, dosagem, etc?

Sim, não só entre os medicamentos em si como entre estes e as dietas alimentares.

Além do chamado consultório farmacêutico, fala-se muito hoje na farmácia como um posto de saúde em que se aplicariam vacinas, por exemplo. O que a sra. acha dessa nova abertura para as farmácias e os farmacêuticos?

Isso vai exigir profissionais cada vez mais qualificados e, da farmácia, sistemas de acondicionamento especializado, com controle de temperatura, enfim, uma infraestrutura adequada.

Como usuária de farmácia, o que acha do atendimento médio prestado por seus colegas na hora de comprar um medicamento?

Percebo que a regra, mesmo quando é o farmacêutico que atende, é ele não fazer nenhuma pergunta, nenhuma observação sobre os medicamentos solicitados e dispensados. Se o cliente não pergunta, não há nenhum questionamento. Ou seja: o farmacêutico não é proativo. Claro que isso muda nas farmácias de manipulação ou de homeopatia. Mas a criação dos consultórios farmacêuticos, com ambientes privados para a ampliação do contato com o cliente, deve ser a solução para essa atual impessoalidade que vigora no balcão.

Os farmacêuticos da USP se sentiriam atraídos por esse novo campo da farmácia?

Nossa escola tem um viés muito tecnológico. Mas nos últimos anos, a área de atenção farmacêutica e de farmácia clínica está se expandindo. Quando os alunos começam a entrar em contato com pacientes, nos estágios práticos do curso, eles passam a se sentir atraídos por esse relacionamento pessoal mais direto. Por isso, vários deles estão se encaminhando para atender em UBSs – Unidades Básicas de Saúde. A escola tem de mostrar ao aluno, na graduação, todo o espectro da profissão a fim de que se despertem vocações. Quando o ambiente comercial de uma farmácia permitir esse contato, vai se ampliar o espectro.

Ainda existe algum “ruído” ideológico e pessoal entre professores e alunos aqui na USP?

Comigo, pessoalmente, não sinto. Tenho um relacionamento muito bom com os alunos. Mas alguns professores têm problemas – eles se incomodam, por exemplo, com alunos usando celular na classe ou dormindo. Esse tipo de conflito é mais comum no curso médio. Na faculdade, o ambiente é livre, incluindo o acesso de entrada e saída da classe durante a aula, na maioria das disciplinas.

E a crise, professora, tem afetado a Universidade de São Paulo?

Sim, por problemas anteriores a esta gestão, a USP viu minguarem as reservas – e, paralelamente, a queda na arrecadação do ICMS, não só pela redução da atividade econômica como pela redução da parcela desse imposto destinada às universidades. Desde 2014, o orçamento da escola está ao nível do de 2008/2009 – o que tem nos trazido alguns problemas para a manutenção de serviços e atividades.

Estamos entrando na Primavera. Como a sra. se sente nesse período do ano com um nome tão poético?

Meus pais eram anarquistas do ramo pacifista – e, nos grupos de que eles participavam, eram comuns os nomes mais significativos. Filhos de amigos de meus pais se chamam Amor, Lua, etc. Mas é evidente que, quando eu era pequena, meu nome era motivo de brincadeira – numa época pré-bullying. Hoje, todos estão acostumados, apesar de algum estranhamento: “Prima de quem?”. E muitas pessoas já me chamaram de Margarida – por associação.

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