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Sarampo. Ele voltou?
04 ago '18

Foto: © SecondSide

Há exatos dois anos – 27 de julho de 2016 - o sarampo era considerado “extinto” no Brasil. Por isso, naquele dia, a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) entregou ao Ministério da Saúde, durante a 55ª Reunião do Conselho Diretor da OPAS, em Washington, o certificado da eliminação da doença.

No final de julho de 2018, numa reviravolta surpreendente e preocupante, o Brasil já registrava 475 casos confirmados de sarampo este ano – segundo os dados mais atualizados das secretarias de Saúde dos estados. Onde foi que erramos?

E o que podemos fazer para deter essa onda epidêmica de uma perigosa doença infecciosa que julgávamos eliminada do rol de doenças brasileiras?

O ano de 2018 está sendo marcado pela volta dessa doença comum da infância, mas considerada erradicada e que deixa sequelas importantes, além de ser letal para bebês que ainda não foram vacinados. Primeiro, uma informação de caráter prático: a lei que autoriza a aplicação de vacinas em farmácias para prevenção de doenças imunopreveníveis, como tétano, difteria, rubéola, caxumba, poliomielite, febre amarela, hepatite a, hepatite b, varicela, gripe, dengue, HPV, inclui a vacina contra o sarampo.

E esta é a principal arma para se deter o avanço da doença – que andava esquecida justamente porque achávamos que a temível moléstia, comum no tempo de nossos avós, estava sob absoluto controle. Voltando ao preocupante quadro atual: Amazonas e Roraima têm os piores quadros, com 263 e 200 registros, respectivamente. Depois vêm Rio Grande do Sul (7), Mato Grosso (2), Rio de Janeiro (2) e São Paulo (1). A crise humanitária na Venezuela, gerando um pesado fluxo imigratório para a região Norte do Brasil, é apontada pelos infectologistas como a principal causa para o retorno do sarampo. E, diante dessa retomada, a realidade vacinal veio à tona: um em cada quatro municípios do país tem cobertura abaixo do ideal em todas as vacinas obrigatórias para bebês e crianças, situação que eleva a ameaça de retorno de velhas doenças e de surtos daquelas nunca eliminadas – como a febre amarela, que gerou um surto no ano passado, felizmente controlado. Dados fornecidos pelo Programa Nacional de Imunizações, uma das principais estratégias de prevenção adotadas pelo SUS, mostra que, em 2017, 1.453 das 5.570 cidades brasileiras não atingiram as metas de cobertura para nenhuma das dez vacinas indicadas para esse grupo, citadas no início dessa matéria. A verdade é que relaxamos. O sarampo, doença altamente contagiosa, não perdoou. Aqui, com informações do infectologista Renato Kfouri, vice-presidente da SBIm – Sociedade Brasileira de Imunizações – um ABC do sarampo:

O que é o sarampo?

É uma doença infecciosa, causada por um vírus. É grave e extremamente contagiosa. Suas complicações são maiores em crianças menores de um ano de idade e desnutridas.

Quais são os sintomas?

Febre alta, acompanhada de tosse persistente, irritação nos olhos, secreção no nariz e manchas brancas na mucosa bucal. Em seguida, podem vir manchas avermelhadas no rosto, que podem se disseminar até o pé, e que duram três dias – é o vírus agindo.

Como ela é transmitida?

Pelo contato direto com a secreção do doente (ao espirrar, tossir ou falar), pela mão (tocando objetos infectados e depois levando-a à boca ou nariz) e pelo ar, em ambientes fechados como escolas, creches e clínicas. O único jeito de evitar a doença é tomando a vacina tríplice-viral (sarampo, caxumba e rubéola), disponibilizada pelo Ministério da Saúde gratuitamente nos postos de saúde.

Por quanto tempo a transmissão ocorre?

De quatro a seis dias antes e até quatro dias após o aparecimento das manchas na pele. O maior risco ocorre dois dias antes e dois dias depois.

Como se prevenir?

A única maneira é tomando a vacina.

Como funciona o tratamento?

Não existe tratamento específico. Crianças podem receber a recomendação de tomar vitamina A para evitar casos graves e fatais. Se não houver complicações, é importante se hidratar, comer comidas leves e manter a febre baixa.

Quem deve tomar a vacina contra sarampo?

O máximo de pessoas possível. Bebês devem receber, aos 12 meses, uma dose da vacina tríplice viral (contra sarampo, caxumba e rubéola) e, aos 15 meses, uma dose da tetraviral (que também protege contra catapora). Quem não tomou a vacina quando bebê, deve tomá-la depois: duas doses da tríplice viral se tiver até 29 anos de idade (com um mês de intervalo) e uma dose se tiver de 30 a 49 anos.

Quem tem 50 anos ou mais não precisa se imunizar?

Considera-se que pessoas com essa idade já tiveram contato com o vírus antes. Por isso, reservam-se as doses a quem tem mais risco de contrair a doença.

Quem não deve tomar a vacina?

Gestantes, bebês com menos de seis meses, pessoas com suspeita de sarampo e imunocomprometidos. Quem já teve a doença também não precisa se imunizar.

O que deve fazer uma grávida se não estiver vacinada?

Esperar para ser vacinada após o parto. Mulheres que estejam planejando ter um filho devem se assegurar de que estão protegidas fazendo um exame de sangue. Se não estiver, tomar a vacina ao menos quatro semanas antes de engravidar.

Quanto tempo a vacina leva para fazer efeito?

De duas a três semanas.

O que devem fazer pessoas que não lembram ou não sabem se foram vacinadas?

Se tiver até 49 anos de idade, deve tomar a vacina. A partir dessa idade, a imunização deve ser avaliada caso a caso.

Quem tomou uma dose quando bebê deve tomar outra?

Sim, a segunda dose garante a plena proteção. Cerca de 85% a 90% dos pacientes respondem à primeira dose – a segunda dose eleva esse número para 95% a 97%. A vacina vale para a vida toda. Mas quem tem dúvida se está imunizado ou não vale a pena tomar de novo.

Para a Dra. Flávia Bravo, presidente da Sociedade Brasileira de Imunização, “o sarampo é uma doença que, até pouco tempo, tratávamos como controlada. Os pais não se preocupam com as vacinas e as escolas não estão cobrando o cartão vacinal para matrícula em escolas públicas e privadas. Aliado a isso, há as fake news, que mistificam a vacina. Vivemos tanto tempo hoje por conta da imunização. É um grande avanço da medicina”.

Pólio também preocupa

Outra preocupação dos infectologistas é a temível poliomielite – que produz paralisia flácida, de início súbito, nos membros inferiores. Ela é considerada “sob controle” desde os anos 70, quando se iniciou a vacinação em massa. O último caso oficial foi registrado em 1990. Mas, segundo o Ministério da Saúde, a exemplo do sarampo, 312 municípios brasileiros estão hoje com cobertura vacinal abaixo de 50% para a doença. A situação afeta sobretudo crianças menores de cinco anos. Há dois anos, o Brasil não ultrapassa a meta de 95% de cobertura vacinal contra poliomielite. No último ano, somente o Ceará atingiu o índice. Atualmente, a cobertura é de 77%.

Atenção: entre 6 e 31 de agosto haverá campanha de imunização contra a doença. Até lá, a ordem é que as secretarias estaduais intensifiquem a vacinação. No Brasil, a vacina da poliomielite faz parte da rotina do Calendário Nacional de Vacinação e é ofertada para crianças aos dois, quatro e seis meses, com reforços aos 15 meses e aos 4 anos. Já adolescentes ou adultos que não tomaram todas as doses podem iniciar a imunização imediatamente.

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