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Tireoide - Hormônios vendidos na farmácia
06 set '16

Foto: Andrey Popov

Analisando-se toda a farmacopeia disponível nas prateleiras das farmácias, só há uma categoria de medicamentos capazes de cumprir as funções integrais de um órgão do corpo humano: os hormônios tireoidianos. A tireoide, pequena glândula localizada no pescoço, é responsável pelo bom andamento de nosso metabolismo. Quando ela é extraída, por causa de um câncer, por exemplo, ou quando ela funciona num ritmo abaixo do normal, no chamado hipotireoidismo, hormônios sintéticos conseguem substituí-la ou supri-la plenamente, pelo resto da vida.

Mas há uma disfunção da tireoide que é bem mais difícil de tratar – é o hipertireoidismo, quando ela trabalha em velocidade excessiva. Nesse caso, o tratamento é mais complexo. É fácil distinguir entre uma tireoide preguiçosa de uma ativa demais? A Dra. Natalie Terasaka, endocrinologista do IMA Brasil – Instituto de Medicina Avançada, explica aqui os mistérios dessa caprichosa glândula

Com seu formato de borboleta, e pesando no máximo 30 gramas, ela pode passar despercebida a vida inteira. Quando não funciona adequadamente, porém, pode levar a repercussões em diversas variáveis de gravidade – de sintomas leves a formas que podem trazer risco de vida. Cerca de 10% das mulheres acima de 40 anos e 20% das que têm acima de 60 têm algum problema na tireoide – com predominância do hipotireoidismo. Uma em cada cinco mulheres que procuram seus ginecologistas para iniciar uma terapia de reposição hormonal apresenta, na verdade, problemas tireoidianos. O hipertireoidismo é menos frequente, mas não é raro. A tireoide produz os hormônios T3 e T4 que atuam em todo o nosso organismo, regulando o metabolismo. Uma tireoide que funciona pouco pode reduzir em todas as funções orgânicas – os movimentos ficam mais lentos, o intestino mais preguiçoso, o pensamento mais lerdo, o humor mais depressivo, até a pele pode ficar mais seca, e o coração bate mais devagar.

Uma pessoa com hipotireodismo pode até engordar. Mas a Dra. Natalie ressalta que, nesse caso, o aumento de peso não é dramático e a tireoide tem sido usada como “desculpa” por mulheres que brigam com a balança – em grandes ganhos de peso, geralmente estão envolvidos sedentarismo e má alimentação. Já no hipertireoidismo, ocorre o contrário. O excesso do hormônio deixa tudo mais rápido – inclusive os batimentos cardíacos. Um quadro de ansiedade e agitação pode ser percebido à consulta: a pessoa parece acelerada demais. A palpação do pescoço, detectando uma tireoide com volume aumentado, pode reforçar a suspeita. Mas é só o exame laboratorial que confirmará o diagnóstico.

Sintomas típicos, mas nem sempre

Segundo a Dra. Natalie, os sintomas do hipotireoidismo podem se confundir com cansaço do dia a dia ou com um quadro de stress. Sinais que parecem típicos do não funcionamento da glândula podem não se confirmar com a dosagem dos hormônios. “A prova é o exame laboratorial”, resume ela. E o indicador número 1 é o TSH, o hormônio-mensageiro que a hipófise, glândula-mãe de todo o organismo, manda à tireoide. Um TSH aumentado pode ser o primeiro indício de que a tireoide está com a função diminuída. Isto é: o TSH sobe antes de os hormônios tireoidianos começarem a baixar. Segundo a médica, há pessoas mais propensas a ter hipotireoidismo por causa de componentes genéticos ou da existência de doenças autoimunes concomitantes, em que as células de defesa do corpo agridem o próprio organismo. De qualquer forma, uma vez estabelecido o diagnóstico, o hipotireoidismo pode ser controlado em 100% dos casos através dos hormônios sintéticos – que substituem perfeitamente os naturais. Aliás, pode-se dizer que a tireoide é o único órgão humano “vendido” em farmácias. Mesmo uma pessoa que não tenha mais a tireoide – extraída, por exemplo, por causa de um tumor maligno – pode viver normalmente, sem nenhum problema, ingerindo um comprimido por dia. E a indústria farmacêutica, lançando no mercado inúmeras posologias, permite aos médicos fazer uma sintonia fina do ajuste hormonal. Cada paciente tem uma dosagem que melhor se adapta a seu metabolismo. Mas a Dra. Natalie ressalta: na maior parte dos casos, o paciente tomará os medicamentos para toda a vida, pois o tratamento não representa cura, mas reposição.

Hiper: uma tempestade hormonal

Bem mais raro, o hipertireoidismo é também muito mais difícil de tratar. A causa mais comum do hipertireoidismo é uma doença autoimune chamada Doença de Graves. Outras causas do hipertireoidismo incluem o bócio multinodular (aumento do volume da glândula que leva à produção excessiva dos hormônios), tumores, inflamações e infecções na tireoide. Sintomas? Taquicardia, nervosismo e ansiedade fora do normal, além de intolerância ao calor, sudorese excessiva e, na mulher, irregularidades menstruais. Tudo isso pode ser sinal de excesso de funcionamento da tireoide. Mas, a exemplo da hipo, eles podem se confundir com sintomas de outras patologias, com exceção de um sintoma mais avançado, que é a protusão dos olhos, os chamados olhos esbugalhados. De qualquer forma, só a dosagem laboratorial confirmará a suspeita. O tratamento não é tão simples quanto o do hipotireoidismo – e, muitas vezes, pode levar ao quadro oposto, o hipotireoidismo. Segundo a Dra. Natalie, o uso de iodo radiativo é a terapia mais frequente, pois essa substância faz uma espécie de ablação química da glândula. Medicamentos também podem ser usados e a cirurgia para extirpação da tireoide fica como última opção.

Câncer de tireoide: avanços no diagnóstico

Embora os nódulos na tireoide sejam tipicamente benignos, entre 5% e 15% podem apresentar malignidade. Sem substituir a punção aspirativa, o ultrassom é altamente recomendado em casos em que o diagnóstico deixa dúvidas. O médico radiologista Osmar Saito, do Centro de Diagnósticos Brasil, em São Paulo, afirma que nos últimos anos houve aumento no diagnóstico de câncer de tireoide. Em compensação, como a doença vem sendo diagnosticada em estágio inicial, houve queda de mortalidade.

Como detectar

Disfunções na tireoide podem ser diagnosticadas por um simples exame de sangue em que são realizadas as dosagens dos hormônios tireoidianos. Também poderá ser solicitada pelo médico a dosagem de autoanticorpos. Entretanto, se houver suspeita de nódulos, o médico pode solicitar exames complementares, como ultrassonografia, cintilografia ou biópsia. Um recente avanço tecnológico é o ultrassom com elastografia – nova tecnologia que avalia o grau de elasticidade do nódulo. Em princípio, os nódulos malignos apresentam baixo grau de elasticidade.

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