notícias
Todo dia é Dia da Mulher
15 mar '18

Foto: © goodluz

Em 8 de março o mundo celebra o Dia Internacional da Mulher – e motivos para comemorar não faltam. O papel da mulher na sociedade e em todos os segmentos da economia tem crescido de maneira exponencial – com o chamado “empoderamento” feminino. No segmento das farmácias e drogarias não é diferente. Elas já são maioria, num setor no qual o atendimento pessoal é cada vez mais valorizado.

Nesta entrevista, as Dras. Michelle Reis (Farmacêutica Bioquímica com MBA em Marketing Executivo, Compliance Office e Gestora de Branding, ex-Gerente Geral Farmacêutica da Drogaria Onofre) e Valeria Pires (Farmacêutica Industrial, Auditoria de ISO9001:2015, homeopata, ex-gestora de performance farmacêutica no varejo da Drogaria São Paulo-DPSP) abordam o papel da mulher na farmácia – assunto sobre o qual elas falam de cátedra. Michelle e Valeria se uniram a Daniela Fantoni (administradora e coach, ex-gestora executiva da Drogaria Onofre) para fundar a Terceiriza Varejo, com o compromisso de oferecer mentorias e consultorias com direcionamento tático e operacional para o varejo de saúde – com gestão eficaz e integral do negócio. Três mulheres poderosas, a favor do mercado de saúde, em parceria com a ABCFARMA.

Os cursos de Farmácia estão formando mais mulheres?

Michelle – Sim, há mais farmacêuticas chegando ao mercado. O curso de Farmácia está mais ramificado – e com especializações mais voltadas ao segmento feminino, como farmácia estética, cosmetologia, etc. Antigamente, havia um foco maior na área de toxicologia, farmácia industrial, hospitalar, análises clínicas, controle de qualidade e pesquisa, setores mais masculinos. Hoje os cursos de Farmácia também estão com ênfase no atendimento farmacêutico, atraindo mais mulheres. Elas têm um viés mais humanizado – a partir do dom essencialmente feminino de gerar e servir alguém.

Valeria Pires – Num passado recente, a maioria dos cursos de Farmácia eram voltados para dois segmentos: análises clínicas e indústria. Diante dessa opção, as mulheres procuravam mais a área de análises clínicas. Com a evolução dos cursos de Farmácia e das especialidades e a implantação de serviços farmacêuticos no varejo, surgiu uma grande oportunidade para as mulheres que, como a Michelle destacou, tem esse viés de cuidar, de se dedicar a alguém.

A obrigatoriedade da presença do farmacêutico nas farmácias atraiu mais mulheres para o segmento?

Valeria - 70% dos farmacêuticos estão hoje no varejo. Mas o atendimento farmacêutico no balcão não é fácil como pode parecer à primeira vista. Vai muito além de apenas dispensar o medicamento prescrito na receita. O médico geralmente é um especialista. Na farmácia, não há essa especialidade: o farmacêutico atende a pessoas com todas as patologias. Ele tem que entender de dor de cabeça, dor no pé, interações medicamentosas. Às vezes, o paciente vai ao ortopedista, mas não revela que é diabético. O remédio está interferindo nessa relação – e caberá ao farmacêutico esclarecer.

O que a Terceiriza Varejo recomenda ao farmacêutico para se adequar aos novos tempos?

Valeria – São vários caminhos: frequentar cursos de especialização, inclusive à distância, ou uma pós-graduação em farmácia clínica. Se não estiver num momento adequado para fazer um curso, há centenas de artigos publicados na internet, livros, etc. É preciso ir atrás. Estudar constantemente. Trabalhei 20 anos em farmácias e drogarias. Com a farmácia me identifiquei, porque todos os dias surgiam situações novas e novas exigências do paciente. Comecei atendendo no balcão, fui crescendo na empresa e acabei montando a coordenação farmacêutica dentro de uma grande rede. Quando havia dúvidas que saíam muito fora do comum, passei a atender farmacêuticos. É o caso, por exemplo, de prescrições médicas com doses muito acima do que normalmente é receitado. Muitos farmacêuticos têm receio de questionar o médico – mas esse é o papel dele. É preciso considerar que o farmacêutico é parceiro responsável junto ao médico.

Letra de médico ainda gera problemas?

Na verdade, com o advento da informatização, grande parte das receitas hoje é computadorizada, o que evita a indução a erro. Mas algumas receitas ainda vêm com a grafia lamentável. O prescritor deve ter essa consciência – e, na dúvida, o farmacêutico tem que entrar em contato com o médico.

Michelle, você também começou trabalhando em farmácia?

Sim, no setor de manipulação – em que há uma exigência muito alta do farmacêutico. O processo de fabricação é todo supervisionado por ele – da compra da matéria-prima e da qualificação do fornecedor ao controle de qualidade dos medicamentos, encapsulação, conferência de prescrição, etc. Aliás, quase 70% do segmento de farmácias de manipulação é de propriedade de farmacêuticas. A assistência farmacêutica, numa farmácia de manipulação, é muito mais intensa, pois exige uma interação mais próxima e mais complexa com o cliente – cada componente da fórmula tem que ser explicado. É uma área fabulosa – geralmente com dois a três farmacêuticos por farmácia. É uma paixão minha.

Qual é o perfil do farmacêutico ideal para uma farmácia hoje?

Michelle - O ideal, na visão do dono da farmácia, é um farmacêutico ativo, que agregue qualidade e fidelidade à farmácia através do bom atendimento e do cumprimento de todas as suas obrigações funcionais. Não é aquele profissional que chegue só para cumprir a legislação e não tenha nenhum interesse no crescimento da farmácia. Ele precisa também ter uma visão de negócio. Um bom profissional entende de tudo um pouco, oferece ótimo atendimento, fideliza os clientes, aprimora o layout da loja, é ativo no treinamento de seus balconistas. Esse profissional o proprietário não vai querer perder nunca. Aliás, mulheres costumam fazer tudo isso muito bem. A primeira coisa que fiz na Onofre foi estabelecer um programa de gestão de qualidade para o atendimento de pacientes com maior risco no uso dos medicamentos controlados. Eu ligava para todos os clientes desses produtos, perguntando se estava tudo bem, se precisavam de alguma coisa, e me colocando à disposição. A limpeza impecável da loja era outro ponto de excelência.

Mulheres, em geral, têm essa disciplina?

Sem dúvida, mas isso depende muito de se amar o que faz. Eu amo ser farmacêutica, amo atender o paciente, amo o que faço. A excelência do cuidado vem quando você ama o que faz.

E o novo “consultório farmacêutico”? Vai pegar?

Valeria - Seja um consultório, seja uma sala de atendimento, como muitos preferem denominar, era um serviço que já vinha sendo feito, mas de uma maneira mais informal. O farmacêutico acompanhava alguns pacientes e se preocupava em fazer o monitoramento do seu dia a dia, explicar as consequências do medicamento, etc. Com o atual resgate da farmácia clínica em farmácias e drogarias, aprimorando os serviços prestados pela loja, hoje temos mais ferramentas tecnológicas para fazer esse acompanhamento com mais eficiência.

Como veem esse recente empoderamento feminino?

Valeria – Como mulher, fico satisfeita de ver outras mulheres ocupando não só cargos convencionais, mas galgando outros. As faculdades de Farmácia sempre foram escolas com muitas mulheres, talvez refletindo esse prazer e essa vocação de se doar, dando ideias, cuidando com carinho da área regulatória, para que o estabelecimento cumpra todas as legislações. É um cuidado bem feminino.

Michelle – Vejo hoje mulheres mais empoderadas, mas com uma liderança mais humanizada. A liderança de alguém que é mãe, dona de casa, doutora, empresária, estudante, filha. Tudo em uma única pessoa. Somos mais delicadas e talvez mais explosivas, com a parte emocional às vezes se sobrepujando ao racional – o que, no mundo corporativo, pode gerar algumas consequências. Mas a mulher ganhou espaço enorme – e o papel do homem nesse novo cenário não pode ser esquecido. Fomos outro dia a uma palestra de mulheres presidentes de empresas de logística farmacêutica. E quase todas insistiram num ponto: só chegaram à presidência porque têm excelentes maridos.

+ NOTÍCIAS